segunda-feira, 29 de novembro de 2010

ADEUS, TREMA

Prof. Emédio (escreve às 2as)
Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema.
Você pode
nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos
aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e
cinqüenta anos.
Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu
simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Ingratos!
Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!
O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio... A letra U se
disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. Os dois pontos
disseram que eu sou um preguiçoso que trabalho deitado enquanto eles ficam em pé.
Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C cagão que fica se
passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem
aquele obeso do O e o anoréxico do I.
Desesperado, tentei chamar o ponto
final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele
negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se eu deixar um
topete moicano posso me passar por aspas?
A verdade é que estou fora de moda.
Estão na moda os estrangeiros, o K, o W...
É "Kkk" pra cá, "www" pra lá...
Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de
Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER.
Chega de argüição, mas estejam
certos, seus moderninhos: haverá conseqüências!
Chega de piadinhas dizendo
que estou "tremendo" de medo. Tudo bem, vou - me embora da língua
portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os
tremas. E um dia todos sentirão saudades. E não vão agüentar.
Nos vemos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história.

Adeus,
Trema.

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